Arquivo para março, 2013

Medicalização da vida

Naturalizar um processo medicamentoso, principalmente dentro de uma terapêutica que procura reformar um jeito de ser, denuncia nossa dificuldade em lidarmos com os processos da vida. Corremos atrás das soluções prontas, do rápido, do acabado, da meta. Encaixota-se o outro dentro de noções de certo e errado para evitar um possível questionamento de si mesmo. Procuramos para os nossos filhos as escolas que mais aprovam para o vestibular, ou as que mais oferecem atividades, mas não conseguimos (ou não aceitamos) a complexidade que é o processo de educação de uma criança que vai muito além de um simples e vazio ato de estudar e acumular informação. Crianças são e precisam ser inquietas.

“Entre 2009 e 2011, o consumo do metilfenidato, medicamento comercializado no Brasil com os nomes Ritalina e Concerta, aumentou 75% entre crianças e adolescentes na faixa dos 6 aos 16 anos”

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O outro

Ninguém aprende olhando para o espelho. O outro é a via de aprendizado mais poderosa que existe. Estar atento a nuance das relações é estar com o espírito aberto para a vida. É no encontro consigo mesmo, mediado pelo outro, que podemos perceber as maiores sutilezas do nosso ser. É no encontro com outra pessoa que emergimos.

Temos um pouco de nós em cada um que cruza nosso caminho e vice-versa. Vivemos em uma rede afetiva que é constituída pelos afetos de todos os organismos e forças da natureza. Essa rede de equilíbrio dinâmico constitui a Sabedoria Orgânica do planeta. Mesmo na tentativa de isolar-se o isolamento é impossível. Estamos a todo momento afetando e sendo afetados.


Vida servil

Três imagens muito curiosas correram a mídia esta semana: Os católicos na Praça de São Pedro, chorando ansiosos pelo seu Papa. A fila dos admiradores de Hugo Chaves, desesperados para dar adeus a seu corpo. Os norte Coreanos jogando-se aos pés do seu comandante militar, que cumpre vezes de presidente. Esperamos tanto um herói, um pai, um líder ou um messias, que quando ameaçados pela orfandade entramos em uma zona de desespero. Acredita-se nos porões do nosso eu, que alguma salvação está por vir e todo esse sofrimento irá acabar nos tirando da “pobre condição de oprimidos”. Nossa carnal dependência em relação a uma autoridade nos submete a uma vida sem questionamentos, de inércia político-existencial-corporal. “Honrarás pai e mãe” tem efeitos muito mais profundos dos que acreditamos. Aprendemos subjetivamente que a autoridade não se questiona, não se responde, não se discorda. Os mais velhos (mais poderosos) tem sempre razão. A educação está toda centrada na manutenção desses poderes autoritários e ao invés de questionadores desse paradigma, as crianças crescem multiplicadores do mesmo. Se existe algum aventureiro que poderá nos salvar é o aventureiro que enterremos nos nossos empregos seguros e tediosos que sustentamos a custa de nossa própria vida.


2013

Içamos as velas e os ventos sopram com força nosso barco em 2013. Este ano trará muitas coisas novas no trabalho da Formação Humana.

  • Em agosto um novo grupo de facilitadores se forma na turma de Porto Alegre depois de 18 meses de trabalho.
  • O livro do facilitador Rodrigo Carancho está no forno, assando em fogo baixo como deve ser.
  • Curso “O corpo afeto – Subjetividade, movimento e Sabedoria Orgânica” no Rio e em Porto Alegre.
  • Em 2013 um novo grupo de formação de facilitadores de processo deverá iniciar no Rio de Janeiro.
  • A facilitadora Francis Pagliarini em breve inicia um novo grupo em Canoas/RS.
  • Breve notícias sobre o programa de Formação Humana para educadores.
  • O facilitador Rodrigo Carancho está trabalhando em uma proposta de um curso para terapeutas, psicólogos e profissionais de saúde.
  • Um série de vídeos estão sendo preparados sobre a Abordagem de Formação Humana. Breve publicação no site e nas redes sociais.
  • Estamos trabalhando no projeto de um Fórum de educação que envolva pais, educadores e crianças em um mesmo evento.

E seguimos trabalhando, sem buscar porto seguro.


O dia de hoje

Quando o dia da mulher deixar de existir talvez poderá se falar em igualdade. Para isso, talvez poderíamos começar com as meninas, desmistificando a princesa, que precisa apertar suas coxas desde os 2 anos de idade para esconder seu sexo. Professores, pais e escritores: Princesas não existem! Sejam mais criativos e confrontem os seus próprios mitos. Questione a sua própria infância. Outra coisa que me ocorre é que poderíamos também autorizar a menina a ser tão aventureira quanto o menino. Quem disse que menina é fraca? Quem disse que menina não grita? Quem disse que menina não tem agressividade? Somos presos aos nosso mitos, enrodilhados aos nossos tabus e achamos que a vida é assim. Além disso, tratamos de aniquilar através da chantagem, da exclusão ou da agressão qualquer um que nos mostre o contrário. “Mulheres comportadas raramente fazem história”


Droga da obediência

O aumento do consumo da “droga da obediência” na educação escancara a dificuldade de lidarmos com nós mesmos. Queremos mudar o sistema, sermos democráticos, justos, queremos a paz, a distribuição equilibrada de renda, queremos saúde e o meio-fio pintadinho de branco. Mas inocentemente acreditamos que essa mudança é externa. Na hora de olhar para si mesmo e adentrarmos na pequenez da nossa precariedade, a ânsia da transformação não se faz tanta e jogamos a responsabilidade no outro. “O inferno são os outros”. Cristãos ou não, ainda esperamos que um grande pai venha nos salvar das garras da escuridão. E no meio disso? Tudo e todos que nos lembram que para viver é preciso assumir o movimento e a incerteza da vida serão perseguidos. Nesse caso as crianças, nossas mestras, mas por serem improdutivas frente ao mercado ainda são consideradas inferiores. A educação continua sendo um processo unilateral que tem como efeito a domesticação de seres humanos. “E sonham com melhores, tempos idos. Contemplam essa vida, numa cela”

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