Arquivo para junho, 2013

Shiva, a nossa bondade e o bom uso da violência

shiva

Para além da esfera política, a crise ilustrada pelas manifestações são parte de um caos civilizatório que de tempos em tempos varre o planeta em busca de uma nova tentativa de equilíbrio. Equilíbrio aliás que nunca é alcançado. A natureza é uma dinâmica caótica e incerta dotada de um mecanismo profundamente inteligente e auto-regulado, mas que nunca atinge uma meta, nunca chega a um lugar, está sempre destruindo e renovando. A vida no planeta é um processo…

Fazendo um resgate histórico podemos perceber que as crises civilizatórias foram marcadas por intensos atos de violência: Guerras, conflitos, discordâncias e lutas geraram transformações que trouxeram a nossa espécie até aqui. É bom lembrar que a destruição e o caos não são exclusividade da arrogância humana. A natureza, em questão de horas, gera um furacão que destrói toda a costa de um país na simples tentativa de regular a temperatura de um oceano. Na natureza reside um constante atrito. Com isso posso entender que a violência é um conceito cultural cunhado pela raça humana e contaminado por visões religiosas que, em nome de uma bondade, “sugeriu” que o conflito as brigas, as discussões, as discordâncias e os embates fossem evitados. Resultado? Talvez a nossa inerte submissão. A paz é a institucionalização da inércia, da não-potência, da submissão, da concordância.

No caso das manifestações, podemos notar que parte dos ativistas estão envolvidos em um embate mais violento. Depredam, agridem, saqueiam. Hora o alvo é um grande banco nacional, hora é a senhora do cachorro quente. A verdade é que a violencia se faz muito presente. De outro lado os policiais que encontram uma boa oportunidade para expressar seu mundo interno e colocar seu treinamento em prática. Nossa tentativa é sempre julgar e rotular: Os vândalos X polícia. Buscamos, no nosso frágil juízo, saber quem está certo. Achamos que a histórias, os nossos conceitos, as nossas ingênuas opiniões e os “chacais da literatura” explicam o fenômeno. Munidos de conceitos antropopsicopolíticos julgam os fatos e batem o martelo: “Este está certo. Este está errado”.

Penso que no fundo não existe o vencedor. O queridinho da mamãe, que faz a coisinha certa não aparece nesta história.  A dualidade entre bem e mal se mostra moribunda em momentos de tensão como que estamos vivendo. E sim, estamos confusos e não sabemos ao certo o que pensar…. A direita e a esquerda não salvarão o mundo, morrerão com ele. E o novo, que virá aos poucos, não respeitará estruturas partidárias, fascismo, anarquismo, nazismo . . .. Esses conceitos fazem parte do modus operandi de um mundo decrépito, que tem cheiro de morte. Novas linhas serão escritas…outras histórias serão contadas . . .

A mitologia hindu conta a história do deus Shiva, o destruidor. Esta entidade representa uma energia transformadora que desconstrói um mundo para criar outro em seu lugar. É uma força da natureza representada no imaginário cultural como a figura de um deus. A profana destruição, a grossura da violência de hora para outra se transforma no sagrado e assume a figura de uma divindade.

A violência que vem a tona neste momento, apenas reforça a ideia de que este realmente é um capítulo histórico. Para algo novo nascer, algo velho precisa morrer, transformar-se. Lógico que vamos sofrer, qualquer um de nós pode surfar essa onda e em segundos perder tudo, até mesmo a vida.

Não quero com isso banalizar um ato de violência. Tampouco ser o pessimista da história. Tento ilustrar aqui a nossa inabilidade para lidar com a agressividade em nós, com a guerra e a violência que residem dentro de cada  corpo…Perseguimos um ideal de bondade e de paz, mas na hora do vômito ninguém segura.

Trata-se apenas de outra frágil visão de mundo que pensa que em nome de algo maior a natureza se regula através de processos que não são bons e nem ruins.

Se conseguir ler até aqui, trate de esquecer…pois não tenho certeza . . .

Rodrigo Carancho


A fragilidade da linguagem

A linguagem comum nos leva a acreditar que a Terra é uma esfera perfeita. No entanto o campo topográfico do planeta é repleto de deformações e assimetrias. Quantas armadilhas a linguagem não nos prega? Quantas vezes batemos o martelo e definimos uma frágil verdade que nos acompanha até a morte? A Formação Humana é um convite ao questionamento da linguagem. O mundo não está pronto…histórias ainda precisam ser contadas.

 

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O ódio a serviço do estado


rodrigo

A raiva e o ódio são sentimentos humanos mais do que legítimos. Sem a devida agressividade, que é matéria prima desses sentimentos, não conseguiríamos sair do lugar. Portanto, longe de mim pregar um mundo paz e amor onde não existam conflitos, brigas, discussões ou desentendimentos. O problema reside na forma primária como lidamos com esses sentimentos que hora são reprimidos e hora vomitados. Logicamente que o trânsito desses sentimentos ocupam as diferentes esferas das relações humanas e da micropolítica do cotidiano. Manifestam-se também diluídas na subjetividade da relação entre estado e sociedade civil, ou seja, onde existe um ser humano existe (ou pode existir) raiva e ódio. A resposta policial ao levante popular que vem acontecendo em algumas capitais do país podem ser um exemplo disso. Aqui a ordem de reprimir as manifestações a qualquer custo encontra um terreno fértil, adubado de ódio que por si encontra uma grande forma de ser expressado através da violência. Olhe para algumas fotos e perceba a forma como os policiais atuam, perceba suas expressões de guerra e ódio. Que tipo de treinamento pode fazer efeito em uma força policial (militar) que não consegue lidar consigo mesmo? Me parece muito claro que o ódio do sujeito-policial está a serviço do estado neste caso. Apesar da tamanha agressividade não passa de um sinal de grande fragilidade perante a vida.  Aguentar pressão, gritos, estouros, correria e ameaças não deve ser algo fácil, mas tampouco se consegue na base de uma be-a-bá comportamental. Um policial consciente de si e responsável por si deve ser a base de uma instituição que lida com delicadas questões envolvendo o outro. Sem tirar a responsabilidade das partes, cabe refletir.

Rodrigo Carancho